SONO
E DOR
DISTÚRBIOS DO SONO EM CONDIÇÕES
DOLOROSAS CRÔNICAS |
O entendimento dos distúrbios do sono e da influência
que o binômio sono-vigília exerce sobre as doenças
é importante para que se possa promover um aprimoramento
no tratamento destas doenças. Como os distúrbios
do sono constituem uma manifestação freqüente
em doenças onde a dor exerce um papel importante, na abordagem
de pacientes com manifestações dolorosas e distúrbios
do sono o tratamento deve enfocar não apenas o alívio
da dor, mas também os distúrbios do sono. Deve-se
levar em conta a influência de fatores emocionais, disfunção
respiratória, limitação motora, condicionamento
físico e o uso de medicamentos que alteram o padrão
do sono. Nos distúrbios do sono, além da sonolência
diurna, outras manifestações devem ser levadas em
conta como a fadiga, os distúrbios de humor e do raciocínio.
Diversas patologias apresentam piora dos sintomas à noite
ou ao despertar, como é o caso das doenças reumatológicas,
da isquemia miocárdica, da cefaléia, das queixas
gastrointestinais, da dor tumoral, dos processos dentários
e ainda dos distúrbios afetivos. Por outro lado, alteração
do padrão de sono podem ser decorrentes de disfunções
do organismo, tanto em crianças, como em adultos e idosos.
Pacientes com dor crônica apresentam redução
da eficiência do sono, dificuldade para dormir e para o
despertar. Além disso podem apresentar perfil depressivo.
Dentre as condições que podem influenciar ou ser
influenciadas pelo binômio dor e sono destacam-se os fatores
psicogêncos e a atividade física. Estudos clínicos
e experimentais tanto em humanos como em animais confirmam a associação
entre o sono não reparador e manifestações
dolorosas. O sono torna-se fragmentado e observa-se aumento no
número de despertares. Além disso, existem evidências
de que o sono profundo pode representar um mecanismo compensatório
para os processos dolorosos crônicos, de modo que pacientes
com maior quantidades de sono profundo provavelmente experimentem
os sintomas dolorosos com menor intensidade.
DOENÇAS REUMÁTICAS
A fadiga é comumente observada nas doenças reumáticas.
De uma forma geral, observa-se redução da eficiência
do sono e aumento do tempo em que o paciente passa acordado
durante a noite. O sono é tipicamente superficial e fragmentado
e existe um aumento na incidência de movimentos periódicos
de membros inferiores e apnéia do sono. Um grande número
de estudos sobre a correlação entre dor e sono
em doenças reumáticas foram realizados na fibromialgia
e na artrite reumatóide. Entretanto, distúrbios
de sono também são descrito na lombalgia, na osteoartrose,
na síndrome de Sjögren, na espondilite anquilosante,
no lúpus eritematoso sistêmico, na esclerodermia
e nos reumatismos de partes moles. Nessas condições
os distúrbios do sono, somando-se à dor, à
fadiga, ao estresse e à alteração do humor
constituem indicativos de evolução clínica
desfavorável.
FIBROMIALGIA
A fibromialgia constitui a entidade reumatológica na
qual os distúrbios do sono tem sido mais pesquisados.
O sono noturno é tido como não restaurador, com
aumento do tempo em vigília e associação
discutível com apnéia do sono e com movimento
periódico de membros inferiores. Os pacientes que apresentam
o padrão alfa-delta do sono (padrão que acarreta
superficialização do sono profundo) tendem a apresentar
piora da sintomatologia dolorosa e da rigidez matinal. As dores
musculoesqueléticas podem ainda se relacionar com a restrita
atividade física.
ARTRITE REUMATÓIDE
A fadiga é manifestação muito freqüente
na artrite reumatóide. Observa-se fragmentação
do sono, com múltiplos despertares. Observou-se correlação
entre rigidez matinal e dor articular em mãos e redução
do sono de ondas lentas, sono REM e aumento no número
de despertares. Pacientes com artrite reumatóide que
apresentam intensos sintomas dolorosos durante o dia tendem
a apresentar aumento compensatório do sono de ondas lentas
à noite. Além de alterações da arquitetura
do sono e sua superficialização, observa-se aumento
nos movimentos periódicos de membros inferiores durante
o sono. No entanto, existem controvérsias quanto ao papel
do inchaço e da dor articular como fatores determinantes
da alteração do humor e dos distúrbios
do sono na artrite reumatóide do idoso.
OSTEOARTROSE
Foram descritos distúrbios de sono na osteoartrose como
a superficialização e fragmentação
do sono. Esses achados podem ser atribuídos ao fato de
que a movimentação durante o sono pode desencadear
sintomas dolorosos nas articulações acometidas,
principalmente quando se trata de joelhos e coluna. O tratamento
da dor e a melhora da mobilidade acarretam efeito positivo sobre
o comportamento social, afetivo e sobre os distúrbios
do sono.
LOMBALGIA
A lombalgia, de uma forma geral, é uma condição
clínica que tende a piorar à noite. Aplicando-se
um questionário a 100 pacientes com lombalgia, constatou-se
que 79% apresentavam piora da dor ao despertar, 53% referiam
aumento do número de despertares durante o sono, enquanto
que 6% dos casos referiram e dificuldade de iniciar e reiniciar
o sono após os despertares.
ESPONDILITE ANQUILOSANTE
A fadiga constitui uma manifestação freqüente
na espondilite anquilosante, sendo mais proeminente nos pacientes
com doença mais grave, ativa. Na vigência de atividade
inflamatória da doença observa-se dificuldade
para iniciar o sono, dificuldade de despertar, rigidez matinal,
sensação de sono fragmentado, com piora da qualidade
do sono.
REUMATISMOS DE PARTES MOLES
Sob a denominação de reumatismos de partes moles
incluem-se patologias como tendinites, tenossinovites, bursites,
periartrites, as quais podem apresentar agravamento da dor à
noite, como ocorrem com as patologias do ombro. Pacientes com
síndrome do túnel do carpo tendem a despertar
durante a noite devido à dor e adormecimento das mãos.
Na síndrome do túnel do carpo, com a interrupção
da condução nervosa no punho durante o sono, os
pacientes referem sono não restaurador, fragmentado e
conseqüente sonolência diurna. A atividade motora
durante o sono e a duração dos despertares intermediários
reduzem com o tratamento do punho acometido.
SÍNDROME DE SJÖGREN
Além da redução da eficiência do
sono devido a despertares intermediários freqüentemente
observados na Síndrome de Sjögren, o diagnóstico
de fibromialgia pode ser feito em mais da metade dos pacientes
com este problema.
OUTRAS CONDIÇÕES DOLOROSAS
MUSCULOESQUELÉTICAS
A fadiga presente no lúpus eritematoso é um fenômeno
proeminente. Dentre os fatores que devem ser levados em conta,
estão a depressão e os distúrbios do sono.
Na esclerodermia, por sua vez, o agravamento da dor decorrente
da isquemia de pontas de dedos ocorre à noite, acarretando
diminuição do tempo total de sono. Distúrbios
do sono podem ocorrem ainda na síndrome de Lyme que é
veiculada pela picada de carrapatos. A dor articular persistente,
a fadiga e os as alterações de memória
e os distúrbios do sono podem persistir apesar do uso
adequado de antibióticos.
DOENÇAS CARDÍACAS
Os pacientes cardiopatas ou com dor precordial apresentam com
maior freqüência sonolência diurna, dificuldade
para dormir, sono acompanhado de comportamentos anormais e diversos
despertares intermitentes, com dificuldade de adormecer novamente.
Pacientes com insuficiência coronária podem apresentar
manifestações dolorosas relacionadas a distúrbios
do sono. Pacientes com angina pectoris apresentam redução
do sono de ondas lentas, da eficiência do sono, o qual
se apresenta fragmentado Observa-se uma correlação
entre a gravidade da doença e os distúrbios do
sono .
Pacientes que sofreram o infarto do miocárdio apresentam
sono superficial, aumento no número de despertares e
redução da eficiência do sono. A manifestação
dolorosa e as alterações do sono podem persistir
por até seis meses após a cirurgia de revascularização
cardíaca.
DOENÇAS GASTROINTESTINAIS
Na úlcera duodenal a piora da sintomatologia ocorre
à noite. Os pacientes apresentam sono fragmentado e demora
para iniciar o sono. A associação de sintomatologia
dolorosa e distúrbio do sono também foi descrita
em pacientes com síndrome do colon irritável,
com alterações no sono REM e queixa de sono não
restaurador. De fato, a concomitância de síndrome
do colon irritável e fibromialgia também tem sido
descrita. No que se refere à esofagite por refluxo, sabe-se
que existe uma interação entre diminuição
da atividade motora e favorecimento do refluxo durante o sono
profundo e sono REM.
DOENÇAS TUMORAIS
Pacientes com câncer podem apresentar distúrbios
do sono relacionados à dor, à fadiga, fraqueza
muscular, náuseas e vômitos como manifestações
da doença ou a efeitos da radioterapia ou a quimioterapia
e a fatores emocionais.
DISMENORRÉIA
Pacientes com dismenorréia (cólica do ciclo menstrual)
apresentam diminuição da eficiência do sono
e da quantidade de sono REM na fase menstrual, em comparação
com outras fases do ciclo menstrual.
FADIGA CRÔNICA
Pacientes com a síndrome da fadiga crônica estão
permanentemente cansados. No entanto o sono apresenta menor
eficiência, um maior número de despertares relacionados
à dor e maior dificuldade para despertar em comparação
com pacientes que sofrem de depressão. O sono é
tido como não restaurador em muitos casos.
DOENÇAS NEUROLÓGICAS
A neuropatia periférica constitui condição
dolorosa crônica no diabete melito e interfere na qualidade
do sono e nas atividades diárias dos pacientes. O mesmo
foi observado na neuropatia pós herpética. A presença
de distúrbios do sono na esclerose múltipla ocorre
em mais da metade dos casos e se caracteriza por dificuldade
em iniciar o sono e despertares freqüentes relacionados
ao desconforto ou sensação de espasmo de membros
inferiores e à necessidade de urinar à noite.
Além disso, os roncos são freqüentes, tendo
sido descritos episódios de apnéia nos casos com
maior número de lesões encefálicas.
CEFALÉIA
Em diversas situações a cefaléia está
intimamente relacionada com distúrbios do sono. A enxaqueca
e a fibromialgia têm em comum a deficiência de neurotransmissores
como a serotonina e a adrenalina, de modo que a analgesia baseada
em drogas que promovam a normalização destes dois
sistemas é mais eficaz na melhora do sono. Os pacientes
com cefaléia dormem menos, apresentam maior dificuldade
para o início do sono e diversos despertares noturnos.
Como conseqüência a fadiga é freqüente
nesses pacientes. A cefaléia que se apresenta preferencialmente
de noite ou de madrugada está freqüentemente relacionadas
a distúrbios de sono e deve ser investigada quanto à
sua duração, à presença de vômitos
e alterações neurológicas e hereditariedade.
Pacientes com enxaqueca apresentaram mais freqüentemente
antecedentes pessoais de distúrbios do sono no início
da vida e cólicas quando lactentes. Na idade escolar,
crianças com queixas de cefaléia tensional ou
enxaqueca apresentam distúrbios do sono (má qualidade
do sono e presença de despertares noturnos), cochilos
diurnos e o hábito de dormir com adultos.
Por outro lado, pacientes com distúrbios do sono, em
especial a apnéia, apresentam freqüentemente cefaléia
pela manhã ao acordar.
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